Como funciona a mídia

Por Georges Bourdoukan, em seu blog:

Um homem passeava tranquilamente no Central Park em Nova York quando, de repente, vê um cachorro raivoso prestes a atacar menina indefesa de sete anos de idade. Os curiosos olham, de longe, mas, atemorizados, nada fazem para defender a criança.

O homem não pensou duas vezes e lançou-se sobre o pescoço do cachorro , tomando-lhe a garganta e após muita luta, matou o raivoso animal e salvou a vida da menina.



Um policial que acompanhou tudo, maravilhado, aproximou-se e disse:

– O Senhor é um herói. Amanhã todos poderão ler na primeira página dos jornais a seguinte manchete:

“Um valente nova-iorquino salva a vida de uma menina”.

O homem respondeu:

– Obrigado pelo elogio, mas eu não sou de Nova York.

– Bom, disse o policial, então a manchete será:

“Um valente americano salva a vida de uma menina”.

– Mas é que eu tampouco sou americano, insiste o homem.

– Bom, isso é o de menos. E de onde o senhor é então?

-Sou palestino, respondeu o valente homem.

No dia seguinte, os jornais publicam a notícia com a seguinte manchete:

“Terrorista árabe massacra de maneira impiedosa um cachorro americano de raça diante de uma menina de sete anos que chorava aterrorizada”.
É preciso que o Brasil e o mundo, principalmente o mundo do Ocidente, que eu conheço melhor, saiba que não existe mídia. Esta foi suplantada e agora nada mais é do que um auxílio em comunicação a poderes que trabalham contra o povo. É um sistema de desinformação, de criar confusão e controversias artificiais para fazer muito barulho e no final ninguém saber da verdade e dos fatos.
Tania R Guimaraes
“Obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo” – Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) em entrevista ao jornal O Globo (18/03/2010).


O Jornalista Barbosa Lima Sobrinho, ao atingir 103 anos de idade, foi entrevistado no SITE TODURO e disse:
“FERNANDO HENRIQUE NÃO TEM INTELIGÊNCIA SUFICIENTE PARA SER RESPEITADO COMO INTELECTUAL” (Jornal “O GLOBO”, 29.05.2000).
Obs.: Tampouco teve pertinácia política para ser considerado um estadista. Ele deve se calar, de preferência para sempre. Homens como ele colonizam seu país, transformando seu povo em escravo!
Antonio Kleber Mathias Netto








Eu confio na nossa Presidenta

Presidenta Dilma

Presidenta Dilma


“Com Lula a esperança venceu o medo, com Dilma a verdade vai vencer a mentira.”
Leonardo Boff

“Com Lula a esperança venceu o medo, com Dilma a verdade venceu a mentira.”





"Se eu andar sobre as águas, dirão que não sei nadar"

Essa frase, de George Bush (o pai), parece ter sido feita de encomenda para o Presidente Lula, frente a atitude do PIG.





"Como diz um provérbio, para o homem que carrega um grande martelo, todo problema tem jeito de prego.


Pense bem!

"Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."
(Joseph Pulitzer)



Nossa Brava Guerreira Dilma!

Nossa Brava Guerreira Dilma!
"Eu não fujo quando a situação fica difícil. Eu não tenho medo da luta....
Fronteira, Minas Gerais, Brazil
Analista de Sistemas, de Mongaguá - SP, morou 8 anos em Porto Alegre do Norte, MT e há 1 ano em Fronteira, MG. Casado, 4 filhos maravilhosos, Rafael, Giulia Roberta, Anna Beatrice e Claudio Roberto e uma esposa, Aida, tanto quanto, nasci dentro da política e vivi em Mongaguá os dias mais crueis da ditadura, uma das cidades que escreveu a história da resistência.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

As duas CPIs: a CPI e a CPIdaG

Como sabe o amigo navegante, a CPI do Robert(o)/Globo/Demóstenes/Cachoeira começa funcionar semana que vem.

O presidente será do PMDB, da base do Governo da Presidenta Dilma.

O relator será do PT e, como é natural, o Nunca Dantes será ouvido sobre o nome a escolher.

Afinal, Lula sabe que o Cachoeira tentou derrubá-lo com a fita da corrupção nos Correios.

Essa filmagem, da corrupção dos Correios, mela o mensalão, como demonstrou reportagem da TV Record.

A CPI do PMDB, com um relator do PT escolhido pelo Lula e a presença decisiva de Protógenes Queiroz – “vocês vão ter que me engolir” -, vai desmontar a hipocrisia moralista, o lacerdismo do Demóstenes e do Sergio Guerra – clique aqui para ler “Será Sérgio o Sérgio Fleury?.

O udenismo de pés de barro que Mauricio Dias denunciou, em boa hora.

Vai ridicularizar a pretensa liderança de Álvaro Dias.

E vai mostrar como a Veja se tornou sólido detrito de maré baixa – aquele sólido detrito que a Globo do Ali Kamel transforma em Chanel # 5.

A CPI do relator do PT vai revelar essa união indissolúvel no altar do Golpe: a Veja, Robert(o), a Globo e Álvaro Dias, o denuncista.

A CPI do relator do PT vai mostrar as vísceras do sistema que governou o Brasil desde o fim do regime militar.

E especialmente depois que o povo brasileiro escolheu presidentes trabalhistas.

Vai mostrar como o Golpe do PiG (Veja/Globo) se materializava no Congresso a partir da aliança entre o PSDB e a Arena/PFL/DEMO.

A aliança gloriosa que governou o Brasil nos oito anos do Farol de Alexandria.

Essa, a CPI do relator petista.

Tem a CPIdaG.

A CPIdaG é a da Globo.

O relator é o Ali Kamel.

Será a CPI para matar a Delta, o PAC e a mãe do PAC – como demonstrou o colonista de múltiplos chapéus, o futuro GPS da CPIdaG,  ao revelar o que pode ser o plano secreto do Cerra para a CPIdaG.

A CPIdaG tem que boicotar a CPI para dar tempo de se realizar o sonho de consumo do Merval: o Peluso condenar o Dirceu.

Clique aqui para ler “Barbosa acusa Peluso de manipular resultados”.

Com a CPIdaG,  Dirceu tem que ser condenado antes de a CPI desmanchar o Golpe do mensalão montado pelo Cachoeira, Demóstenes, Jefferson e Robert(o).

É tão simples quanto isso, amigo navegante.

A CPIdaG é para salvar o mensalão.

O ultimo bote do Concordia do comandante Ali Kamel.

Em tempo: o Conversa Afiada concorda com o Vander: o Supremo deve julgar logo o mensalão. E o Conversa Afiada quer ver o Supremo condenar o Drceu.


Paulo Henrique Amorim

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Mensalão vs CPI


Por Marcos Coimbra

Do Correio Braziliense


Nossa “grande imprensa” está reagindo de forma curiosa à instalação da CPI do Cachoeira. Salvo uma ou outra voz discordante, anda cheia de desconfianças.


No mínimo.


Em alguns casos, sua má vontade é clara. Em outros, mostra-se furiosa.


Cabe a pergunta: o que esperava do Congresso? O que deveriam senadores e deputados fazer frente às denúncias de que Demóstenes Torres está afundado até a raiz dos (poucos) cabelos em gravíssimas irregularidades, assim como, em escala menor, alguns deputados e lideranças de vários partidos?


E quanto às suspeitas que alcançam os governos de Goiás e do Distrito Federal, a revista Veja – um dos baluartes da imprensa de direita – e grandes empresas privadas? Agora que pipocam indícios de todos os lados?


O certo seria que cruzassem os braços e fingissem que nada acontece?


Quando Lula e as lideranças do PT no Congresso entraram em campo para defender a criação da CPI se comportaram como é natural na política: perceberam que seus adversários estavam fragilizados e agiram.


As atuais oposições fizeram a mesma coisa quando tiveram a oportunidade. Assim como os próprios petistas no passado, quando eram oposição e não deixavam escapar qualquer chance de atingir o governo.


A desconfiança da maioria dos comentaristas – e a fúria de alguns – tem a ver com a ideia de que a CPI do Cachoeira é útil ao PT.


Existem CPIs que não são políticas – as que investigam e propõem medidas para enfrentar problemas sociais relevantes. Hoje, por exemplo, há três dessas na Câmara – uma a respeito do abuso infantil, outra do trabalho escravo e uma terceira sobre o tráfico de pessoas. Por mais meritórias que sejam, alguém acompanha seus trabalhos e se interessa por elas, a não ser (talvez) os especialistas?


Resultam de consensos, o inverso do que ocorre nas CPIs políticas. Essas são invariavelmente contra algo ou alguém – governo, governante, partido.


Se nossos comentaristas estão desconfiados – ou apopléticos – com a CPI do Cachoeira por ela ser política, deveriam ficar assim sempre. Todas têm “motivos secretos”, todas visam a alcançar objetivos estratégicos.


Ingênuo é achar que o PT deixaria um escândalo como esse passar em branco, sem se aproveitar dele politicamente.


E a hipótese de a CPI do Cachoeira “nada mais” ser que uma manobra para desviar a atenção do mensalão e livrar os acusados?


Seria um ardil extraordinário, no qual teriam que estar envolvidos Demóstenes Torres e Carlinhos Cachoeira – para não falar dos asseclas. Sem suas centenas de conversas, sem os fogões, geladeiras e celulares que um recebeu do outro, ninguém nem pensaria em CPI. Ou, quem sabe, o senador seria um criptopetista?


Fora sua pouca lógica, a tese de que a motivação última da CPI é distrair o interesse das pessoas do julgamento do mensalão implica supor que esse interesse existe e que o tema, para elas, é relevante. O que não faz sentido. O assunto perdeu, há tempo, a capacidade de motivá-las.


Implica, também, imaginar que o Supremo julga conjunturalmente, ao sabor dos humores ocasionais da população e de acordo com o modo como a imprensa o pauta. Se as pessoas forem “desviadas” do mensalão, será leniente. Se for pressionado, será rigoroso. Ou seja: não age. Somente reage.


Implica acreditar que o Supremo não decide de acordo com a Lei.


No fundo, quem cultiva essas fantasias tem pequeno apreço por nossa Justiça e pela opinião pública. Ou as conhece mal.


CPI da Veja: a foto do escárnio


Na pág A4 da Folha (*) desta quarta-feira,  na pág A4 do Estadão e na pág  3 do Globo, a fina flor do PiG (**), aparecem ACM Neto, Álvaro Dias e Agripino Maia, a sorrir, triunfantes, a exibir a assinatura que afixaram na CPI que o PT e a base aliada criaram.

Sorridente, sentado, Aécio Never, aquele que fez comovente discurso de apoio a Demóstenes.

O Aécio Never sabe que aquilo tudo é uma brincadeirinha.

Como foi o discurso de apoio a Demóstenes.

E como é a candidatura dele a Presidente.

Tudo muito engraçado.

ACM Neto e Agripino são da Arena, PFL, o partido a que pertenceu o finado Demóstenes.

Álvaro Dias é o novo herói do PiG (**).

Ele sucede no panteão dos herois conservadores Thomas Jefferson, aquele que disse à Renata Lo Prete que havia um mensalao e, na hora de a onça beber água, no Supremo, disse que não havia mensalão nenhum.

A fotografia é um escárnio.

Foi feita para a Globo, o que, de fato, se verificou no jornal nacional que pregou a condenação do Dirceu e o abafamento da CPI.

A foto é um exemplo edificante do conluio entre o Golpe no Congresso e o Golpe no PiG (**): a Veja se alivia e o jornal nacional transforma em Chanel #5.

Aí, o Álvaro Dias, na sessão seguinte do Senado, denuncia o que se aliviou na Veja e o jornal nacional transformou em Chanel # 5.

Aí, o jornal nacional dá curso à denúncia do Álvaro Dias – e a bicicleta roda.

No fim de semana, o Cachoeira passa um “furo” à Veja, o jornal nacional transforma em Chanel # 5 na segunda feira … e assim vai versão brasileira da liberdade de imprensa.

E o Bernardo dorme.

A foto faz parecer que o PT não queria a CPI porque vai atingir a Dilma.

O Globo usa seu ilimitado poder para tentar matar o Dirceu e sufocar a CPI, para não chegar ao Ernani de Paula, que, na TV Record, melou o mensalão.

Essa farsa não vai longe.

Mas, o PiG (**) tenta.

Como um de seus pilares, aquele colonista (***) dos múltiplos chapéus.


Paulo Henrique Amorim


O Conversa Afiada prefere esta foto, com Demóstenes ao centro

"Não podemos confundir jornalistas com bandidos"


O deputado Delegado Protógenes (PCdoB-SP) protestou, nesta terça-feira (17/04), no Plenário da Câmara dos Deputados, sua indignação com as matérias veiculadas nessa semana que tentam confundir a opinião pública. Primeiramente a revista semanal VEJA , na matéria " Eles querem apagar o mensalão", cita o deputado como ex-delegado da PF, mostrando sua irresponsabilidade de órgão de imprensa ao publicar noticias tendenciosas, pois o parlamentar é licenciado da Polícia Federal para exercer seu mandato. " Isso não é liberdade de imprensa. Não podemos confundir jornalistas com bandidos, ou ele é jornalista ou ele é bandido. Há um banditismo nessa revista semanal ", declara Protógenes.

Outro veículo mencionado pelo parlamentar foi a revista ISTOÉ, onde o aponta, na reportagem " Dadá e o submundo dos grampos'', como delegado aposentado da Policia Federal. " A mídia brasileira até me deu aposentadoria " ironiza o deputado. Na mesma matéria, ele é citado como parte da rede de apoio ao Dadá, devido as conversas gravadas pela PF. Protógenes esclarece que quando era delegado da Policia Federal se comunicava com o sargento da Aeronáutica, Idalberto Matias de Araujo, indicado pelas Forças Armadas, pois era chefe da Inteligência da Policia Federal.

Para finalizar, Protógenes reconhece a importância da matéria publicada essa semana pela revista Carta Capital " Na mira. Quem tem medo da CPI do Cachoeira?".

CPI é protocolada no Congresso

Por Altamiro Borges

No final da noite desta terça-feira, a Câmara Federal finalmente conseguiu reunir 324 assinaturas para a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigará a máfia de Carlinhos Cachoeira e as suas ligações com o ex-demo Demóstenes Torres, com o governador tucano Marconi Perillo (GO) e, dependendo da pressão da sociedade, com veículos da imprensa - especialmente a revista Veja. Eram necessárias 171 assinaturas. Já no Senado, onde o mínimo exigido era de 27 assinaturas, 54 senadores aderiram ao pedido de criação da comissão mista.
A cortina de fumaça da mídia

Apesar da cortina de fumaça lançada por setores da mídia, que diziam que os governistas seriam contra a CPI, as primeiras adesões partiram exatamente dos partidos da base de sustentação do governo Dilma. A própria Folha online reconheceu, no maior cinismo, que "o PT garantiu 78 assinaturas, confirmando o interesse". Já os parlamentares do PSDB e do DEM aguardaram até a última hora para apoiar a criação da comissão. Na prática, os tucanos e os demos são os que mais temem os resultados da investigação. Já a mídia demotucana tentou apenas confundir a opinião pública.

Concluída a coleta e conferidas as assinaturas, caberá ao presidente do Congresso Nacional convocar uma sessão para ler o requerimento com o pedido de instalação da CPI mista. Com a licença médica do presidente do Congresso, senador José Sarney (PMDB-AP), a missão ficará a cargo da vice-presidente, deputada Rose de Freitas (PMDB-ES). A expectativa é que a sessão seja realizada já nesta quinta-feira. Após a leitura, os parlamentares têm prazo até a meia-noite para retirar suas assinaturas. Se for mantido o mínimo regimental, a CPI poderá ser oficialmente criada ainda nesta semana.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

PT vai à guerra (?)



Sob a liderança de Lula e com a concordância da presidente Dilma, o Partido dos Trabalhadores parece finalmente ter entendido que estava sendo tramado um golpe eleitoral contra si. A direita midiática pretendia usar o julgamento do inquérito do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal neste semestre ou, no máximo, no próximo – em pleno processo eleitoral – para vitaminar a oposição e debilitar o PT.
Eis que cai no colo do partido o escândalo envolvendo Carlinhos Cachoeira e expoentes da oposição demo-tucana como a vestal-mor da República, o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), e o acusador de Lula de ter tomado conhecimento do “mensalão”, o governador de Goiás, Marconi Perillo.
Aturdida, a mídia passa a tentar se desvincular de Demóstenes e cai de pau em cima dele afetando indignação e se dizendo “traída”. Parceira de Cachoeira, que lhe fundamentou a maioria dos ataques ao PT – inclusive durante eleições presidenciais – na década passada e que acabara de ser flagrada em centenas de contatos diretos com o bicheiro, tenta reagir à ameaça de investigação por suas relações com o crime organizado e desencadeia uma campanha em que ameaça o partido do governo com um “efeito bumerangue” contra si e o governo Dilma caso a investigação prossiga.
Poucos dias após dizer que Lula e Dilma apoiavam a criação da CPI, agora a mídia diz que a presidente e “setores do PT” estariam “com medo” da investigação. Além disso, atende à estridência do senador tucano do Paraná, Álvaro Dias, que vinha afirmando que o vazamento de escutas seria seletivo, e começa a noticiar cobranças ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, sobre os vazamentos e a tal “seletividade” cobrada pela oposição.
O PT reage com vídeo de seu presidente, Rui Falcão, em que denuncia que a mídia quer abafar o escândalo de Cachoeira e impedir a CPI, e cobra empenho do partido e de aliados pela instalação da investigação e posterior desmascaramento da “farsa do mensalão”.
Em seguida, o partido divulga em seu site resolução política em que repete a exortação de seu presidente e também denuncia uma “Operação abafa em torno do envolvimento do senador Demóstenes Torres (DEM-Goiás) com a organização criminosa comandada pelo notório Carlos, alcunhado de Carlinhos Cachoeira”.
Por fim, nesta sexta-feira 13, no Jornal Folha de São Paulo, uma prévia daquilo em que deverá se transformar a CPI que a mídia tenta convencer o PT a não levar adiante ou, se levar, que ao menos não leve a sério, sob ameaça de transformá-la em uma CPI contra si mesmo. Ciente do envolvimento da Editora Abril, que edita a Veja, e possivelmente de outros meios de comunicação nas investigações, o jornal dá outro passo para o inevitável.
Em primeiro lugar, publica artigo de Rui Falcão que desanca a oposição e a mídia e as acusa de envolvimento com o crime organizado. Abaixo, reproduzo o texto.
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FOLHA DE SÃO PAULO
13 de abril de 2012
Tendências / Debates
Página A3
Por Rui Falcão
Mais do que uma “vendetta” contra o fanfarrão, a CPI pode explicar o que existia além da ligação de patrão e empregado entre Cachoeira e Demóstenes
O episódio que revelou a escandalosa participação do senador Demóstenes Torres (ex-DEM) em uma organização criminosa merece algumas reflexões e, olhando para o futuro, uma ação imediata.
Desde que foi constatada a cumplicidade do senador com uma gama infindável de crimes, assistimos a uma tentativa (às vezes ridícula)de explicação para o logro em que alguns caíram.
Como justificar que o arauto da moralidade, crítico feroz dos governos Lula e Dilma, trabalhava e traficava informações, obtidas pelo uso indevido do mandato, para um conhecido contraventor?
Até a psicanálise foi fonte de argumentos na tentativa vã de entender as ligações do senador com o contrabando, o jogo ilegal, a escuta clandestina e a espionagem. todas práticas tipificadas no Código Penal.
O certo, porém, é que a veneração que setores da mídia nutriam por Demóstenes refletia uma espécie de gratidão pela incansável luta, essa sim verdadeira, do parlamentar contra todos os avanços sociais obtidos pelos governos petistas.
Ressalte-se, aliás, que mesmo depois de flagrado na participação ativa em organização criminosa, o ainda senador, fingindo ignorar o mundo real, arvora-se a analisar, sob o crivo crítico dos tempos de falsa vestal, ações do governo Dilma.
Mais do que uma “vendetta” contra o fanfarrão, porém, o Congresso está diante de uma oportunidade única de desvendar um esquema que, pelo que foi divulgado até agora, não se resume à ligação de empregado e patrão entre Demóstenes e o contraventor Carlinhos Cachoeira.
A morosidade do inquérito em algumas de suas fases e as ligações pessoais do promotor de carreira Demóstenes Torres com membros do Judiciário precisam ser investigadas. O mesmo se exige na apuração de vínculos obscuros do senador com altos mandatários de seu Estado, Goiás, bem como de sua quadrilha com veículos de comunicação. Que não se permita a operação abafa em andamento. Que se apure tudo, até para dissipar suspeitas.
O único caminho para o esclarecimento passa por uma CPI no Congresso, onde alguns parlamentares também foram ludibriados pelo falso paladino das causas morais.
Cabe à Câmara e ao Senado, sem nenhum espírito de corpo, aproveitar a oportunidade única de desmascarar a farsa até o fim.
Talvez, no caminho da investigação, descubramos outros pregadores da moralidade que também se beneficiem do esquema que se abastecia das informações colhidas e transmitidas ao chefe pelo senador Demóstenes Torres.
A história brasileira registra outros episódios em que a pregação das vestais serviu para embalar a defesa de interesses sempre contrários aos da maioria da população. O falso moralismo udenista não está tão distante.
Se a forma do engodo não é nova, cabe ao Congresso provar, com a CPI, que o país está disposto a dar um basta a esquemas de banditismo. O Partido dos Trabalhadores defende a instalação de CPI no Congresso e conclama a sociedade organizada a se mobilizar em defesa da mais ampla apuração do esquema corrupto desvendado pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo.
Rui Falcão é deputado estadual (SP) e presidente nacional do PT
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Na mesma edição, na página A7, o jornal, finalmente, materializa quase que por completo a assunção inevitável de um assunto que já dá de barato que virá à pauta por força da CPI, caso o PT continue se mantendo disposto a ir à guerra contra a inversão de uma investigação que surpreenderá o país ao expor as relações incestuosas entre imprensa, oposição e crime organizado.
Abaixo, a “reportagem” que pretende responder ao texto do presidente do PT publicado quatro páginas antes.
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FOLHA DE SÃO PAULO
13 de abril de 2012
Tendências / Debates
Página A7
Catia Seabra / Márcio Falcão, de Brasília
PT associa “setor da mídia” a criminosos e defende regulação
Partido afirma que relações reveladas pelo caso Cachoeira comprovam “urgência” de medidas de controle da imprensa
Em evento ontem no Planalto, no entanto, a presidente Dilma Rousseff defendeu a liberdade de imprensa
BRASÍLIA – O PT vai usar a instalação da CPI do Cachoeira para voltar a investir contra a mídia. A disposição está expressa em documento divulgado ontem pela cúpula do partido.
Redigido pelo comando petista, o texto cita a investigação do esquema de Carlos Cachoeira, acusado de exploração do jogo ilegal, a pretexto de voltar a cobrar a fixação de um marco regulatório para os meios de comunicação.
“Agora mesmo, ficou evidente a associação de um setor da mídia com a organização criminosa da dupla Cachoeira-Demóstenes, a comprovar a urgência de uma regulação que, preservada a liberdade de imprensa e livre expressão de pensamento, amplie o direito social à informação”, diz a nota.
Mesmo sem dar nomes, o alvo primário do PT é a revista “Veja”. Em grampos já divulgados do caso, um jornalista da publicação tem o nome citado por membros do grupo do empresário.
A revista já publicou texto informando que Cachoeira era fonte de jornalistas, inclusive do chefe da sucursal de Brasília, Policarpo Júnior, e que não há impropriedades éticas nas conversas.
Integrantes da Executiva do PT e congressistas do partido defendiam que a “Veja” fosse investigada na CPI.
O cálculo político petista inclui o raciocínio segundo o qual o bombardeio sobre mídia e oposição poderá concorrer na opinião pública com o julgamento do mensalão -o esquema de compra de apoio político ao governo Lula descoberto em 2005, que deve ser apreciado pelo Supremo Tribunal Federal neste ano.
O próprio presidente petista, Rui Falcão, falou que a CPI deve investigar “os autores da farsa do mensalão”.
Há a intenção de questionar reportagens sobre o mensalão usadas como prova judicial. A estratégia é tentar comparar a produção de reportagens investigativas, que naturalmente envolvem contato de jornalistas com fontes de informação de várias matizes, a práticas criminosas.
Para tanto, segundo a Folha apurou, réus do mensalão como o ex-ministro José Dirceu instruíram advogados a buscar menções à revista e à mídia nas apurações da PF sobre o caso Cachoeira. Dirceu vai a evento no final de semana sobre regulamentação da mídia em Fortaleza.
O movimento do PT contrasta com discurso da presidente Dilma Rousseff. Ontem, em cerimônia do Minha Casa, Minha Vida, ela defendeu a liberdade de imprensa.
“Somos um país que convive com a liberdade de imprensa, somos um país que convive com a multiplicidade de opiniões, somos um país que convive com a crítica.”
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Como se vê, o jornal termina o texto como que recorrendo a Dilma.
E como disse acima, a matéria escancarou quase tudo. Faltou informar ao distinto público que o que houve entre a Veja e Cachoeira não foi “Produção de reportagens investigativas, que naturalmente envolvem contato de jornalistas com fontes de informação de várias matizes”, mas centenas de ligações telefônicas, encontros e declarações comprometedoras da quadrilha que afirmam que Cachoeira foi o autor intelectual de “todos” os ataques da Veja ao PT.
A única coisa que se espera do partido, portanto, é que não aceite uma negociata que envolva recuo da direita midiática no uso político do julgamento do mensalão, talvez até com postergação desse julgamento, em troca de a CPI não fazer tudo o que prometem o presidente do PT e o próprio em vídeo e textos supra reproduzidos.

segunda-feira, 9 de abril de 2012


Cachoeira é demo-tucano. Ligá-lo ao PT é delinqüência intelectual



A mídia demo-tucana – que, agora, tenta se desvincular de Demóstenes Torres, uma criação sua – vem produzindo distorção revoltante dos fatos ao afirmar que “todos os partidos” estariam envolvidos com Carlinhos Cachoeira. Mentira! Este texto irá provar que comparar a relação dúbia entre um obscuro deputado do PT de Goiás e o bicheiro com as relações íntimas deste com expoentes do PSDB e do DEM, é delinqüência intelectual.
Em 9 de março, a Veja – publicação que mantinha relações íntimas com o criminoso que iam de encontros em restaurantes (etc.) a centenas de ligações telefônicas –, talvez ainda acreditando que aparelhos Nextel habilitados em Miami seriam imperscrutáveis, divulgou, em seu portal na internet, vídeo de 2004 contendo conversa particular entre Cachoeira e o deputado federal pelo PT de Goiás Rubens Otoni que sugere que um ofereceu doação ilegal ao outro.
Isso é tudo, absolutamente tudo o que se tem sobre esse caso além do fato de que, nos anos seguintes, Otoni se transformou em inimigo político de Cachoeira. Apesar de suas palavras ficarem comprometidas após um vídeo em que ele aparece concordando em “não declarar” doação que o bicheiro oferecia, registre-se que alega que desde aquela época (2004) vinha sendo chantageado pelo criminoso justamente por não aceder às suas ofertas.
Seja como for, o vídeo sugere uma relação fortuita, antiga e isolada de um único e obscuro deputado petista com o bicheiro. Pode ter havido, sim, doação ilegal. Mas colocar uma relação como essa, que nem está comprovada, a tudo que há de vasto e comprovado entre Cachoeira e o DEM e o PSDB, é revoltante.
Como comparar a relação dúbia desse obscuro parlamentar e Cachoeira com as relações profundas e extensas de um senador da República do DEM e de dois deputados e um governador do PSDB, ao menos, que foram amplamente documentadas pela Operação Monte Carlo?
Cachoeira tinha linha direta com demos e tucanos, dava celulares a eles nos quais travavam centenas de ligações, encontrava-se com eles em restaurantes, em festas, dava dinheiro a eles, dava presentes, recebia facilitação deles em licitações e na aprovação de uma montanha de indicações a cargos públicos no governo de Goiás.
As escutas da Operação Monte Carlo, gravadas no passado recentíssimo, flagraram apenas políticos do DEM e do PSDB, além de um do PP e outro do PTB. Mas do PT mesmo, não aparece nada. Até porque, a maioria das reportagens da imprensa contra o partido partiu da relação entre a revista Veja e Cachoeira
Deve ser por isso que vazou na internet o inquérito completo da Operação Monte Carlo. Todos os grampos, toda a parte da investigação que ainda estava oculta. Agora, todo esse material pode ser esmiuçado por qualquer um. O vazamento, aliás, pode ter partido de quem quer que qualquer um possa comprovar que Cachoeira era demo-tucano e ponto final.
Até o momento, não há vínculo algum entre Cachoeira e o PT. Nada sequer parecido ao que há entre o bandido e o PSDB e o DEM. Por conta disso, este blog oferece o inquérito completo da Operação Monte Carlo, para que quem quiser tente encontrar uma mísera relação do bicheiro com petistas que pareça minimamente parecida à que ele manteve com demos e tucanos. E deseja boa sorte a quem se aventurar nessa busca infrutífera.
Abaixo, os links para acessar ou até baixar o inquérito completo resultante da Operação Monte Carlo.




Reflexões de Fidel: Os caminhos que conduzem ao desastre



ESTA Reflexão poderá ser escrita hoje, amanhã ou qualquer outro dia sem risco de equívoco. Nossa espécie se defronta com problemas novos. Quando expressei há 20 anos, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, que uma espécie estava em perigo de extinção, tinha menos razões do que hoje para advertir sobre um perigo que via talvez à distância de 100 anos.
Então uns poucos líderes dos países mais poderosos dirigiam o mundo. Aplaudiram por mera cortesia minhas palavras e continuaram placidamente cavando a sepultura de nossa espécie.
Parecia que em nosso planeta reinava o senso comum e a ordem. Há tempos que o desenvolvimento econômico apoiado pela tecnologia e a ciência parecia ser o Alfa e o Ômega da sociedade humana.
Agora tudo está muito mais claro. Verdades profundas foram abrindo caminho. Quase 200 Estados, supostamente independentes, constituem a organização política à qual teoricamente corresponde a tarefa de reger os destinos do mundo.
Cerca de 25 mil armas nucleares em mãos de forças aliadas ou antagônicas dispostas a defender a ordem em mutação, por interesse ou por necessidade, reduzem virtualmente a zero os direitos de bilhões de pessoas.
Não cometerei a ingenuidade de atribuir à Rússia ou à China a responsabilidade pelo desenvolvimento desse tipo de armas, depois da monstruosa matança de Hiroshima e Nagasaki, ordenada por Truman, após a morte de Roosevelt.
Tampouco cairia no erro de negar o holocausto que significou a morte de milhões de crianças e adultos, homens e mulheres, principalmente judeus, ciganos, russos e de outras nacionalidades, que foram vítimas do nazismo. Por isso, repugna a política infame dos que negam ao povo palestino seu direito a existir.
Alguém pensa por acaso que os Estados Unidos serão capazes de atuarem com a independência que o preserve do desastre inevitável que os espera?
Em poucas semanas os US$ 40 milhões que o presidente Obama prometeu arrecadar para sua campanha eleitoral só servirão para demonstrar que a moeda de seu país está muito desvalorizada e que os Estados Unidos, con sua insólita e crescente dívida pública que se aproxima dos US$ 20 trilhões, vivem do dinheiro que imprimem e não do que produzem. O resto do mundo paga o que eles dilapidam.
Ninguém crê tampouco que o candidato democrata seja melhor ou pior que seus adversários republicanos: chame-se Mitt Romney ou Rick Santorum. Anos-luz separam os três de personagens tão relevantes como Abraham Lincoln ou Martin Luther King. É realmente inusitado observar uma nação tão poderosa tecnologicamente e um governo ao mesmo tempo tão órfão de ideias e valores morais.
O Irã não possui armas nucleares. Acusa-se o país de produzir urânio enriquecido que serve como combustível energético ou componente de uso médico. Queira-se ou não, sua posse ou produção não é equivalente à produção de armas nucleares. Dezenas de países utilizam o urânio enriquecido como fonte de energia, mas este não pode ser empregado na confecção de uma arma nuclear sem um processo prévio e complexo de purificação.
Contudo, Israel, que com a ajuda e a cooperação dos Estados Unidos fabricou o armamento nuclear sem informar nem prestar contas a ninguém, até hoje sem reconhecer a posse destas armas, dispõe de centenas delas. Para impedir o desenvolvimento das pesquisas em países árabes vizinhos, atacou e destruiu os reatores do Iraque e da Síria. E declarou o propósito de atacar e destruir os centros de produção de combustível nuclear do Irã.
Em torno desse crucial tema tem girado a política internacional nessa complexa e perigosa região do mundo, onde se produz e fornece a maior parte do combustível que move a economia mundial.
A eliminação seletiva dos cientistas mais eminentes do Irã, por parte de Israel e de seus aliados da Otan, se converteu em uma prática que estimula os ódios e os sentimentos de vingança.
O governo de Israel declarou abertamente seu propósito de atacar a usina produtora de urânio enriquecido no Irã, e o governo dos Estados Unidos investiu centenas de milhões de dólares na fabricação de uma bomba com esse propósito.
Em 16 de março de 2012 Michel Chossudovsky e Finian Cunningham publicaram um artigo revelando que "um importante general da Força Aérea dos EUA descreveu a maior bomba convencional - a antibunkers de 13,6 toneladas - como 'grandiosa' para um ataque militar contra o Irã".
"Um comentário tão loquaz sobre um artefato assassino em massa teve lugar na mesma semana na qual o presidente Barack Obama se apresentou para advertir contra a 'fala leviana' sobre uma guerra no Golfo Pérsico."
"...Herbert Carlisle, vice-chefe do Estado Maior para operações da Força Aérea dos EUA. [...] agregou que provavelmente a bomba seria utilizada em qualquer ataque contra o Irã ordenado por Washington."
"O MOP, ao qual também se referem como 'a mãe de todas as bombas', está projetado para perfurar através de 60 metros de concreto antes de detonar sua bomba. Acredita-se que é a maior arma convencional, não nuclear, no arsenal estadunidense."
"O Pentágono planifica um processo de ampla destruição da infraestrutura do Irã e massivas vítimas civis mediante o uso combinado de bombas nucleares táticas e monstruosas bombas convencionais com nuvens em forma de cogumelo, incluídas a MOAB e a maior GBU-57A/B ou Massive Ordenance Penetrator (MOP), que excede a MOAB em capacidade de destruição."
"A MOP é descrita como 'uma poderosa nova bomba que aponta diretamente para as instalações nucleares subterrâneas do Irã e Coreia do Norte. A imensa bomba - maior do que que 11 pessoas colocadas ombro a ombro, ou mais de 6 metros desde a base até a ponta."
Peço ao leitor que me desculpe por esta complicada linguagem do jargão militar.
Como se pode verificar, tais cálculos partem do pressuposto de que os combatentes iranianos, que totalizam milhões de homens e mulheres conhecidos por seu fervor religioso e suas tradições de luta, se renderão sem disparar um só tiro.
Em dias recentes os iranianos viram como os soldados dos Estados Unidos que ocupam o Afeganistão, em apenas três semanas, urinaram sobre os cadáveres de afegãos assassinados, queimaram os livros do Corão e assassinaram mais de 15 cidadãos indefesos.
Imaginemos as forças dos Estados Unidos lançando monstruosas bombas sobre instituições industriais capazes de penetrar 60 metros de concreto. Jamais semelhante aventura tinha sido concebida.
Não é preciso uma palavra mais para compreender a gravidade de semelhante política. Por esse caminho nossa espécie será conduzida inexoravelmente para o desastre. Se não aprendemos a compreender, não aprenderemos jamais a sobreviver.
De minha parte, não abrigo a menor dúvida de que os Estados Unidos estão a ponto de cometer e conduzir o mundo ao maior erro de sua história.

 
Fidel Castro Ruz
21 março 2012

A guerra dos EUA-Israel ao Irão: 
O mito de uma campanha limitada

por James Petras
A crescente ameaça de um ataque militar dos EUA-Israel ao Irão baseia-se em vários factores incluindo: (1) a história militar recente de ambos os países na região; (2) pronunciamentos públicos de líderes políticos estado-unidenses e israelenses; (3) ataques recentes e em curso ao Líbano e à Síria, aliados importantes do Irão; (4) ataques armados e assassínios de cientistas e responsáveis de segurança iranianos por grupos terroristas e/ou afectos sob controle dos EUA ou da Mossad; (5) o fracasso das sanções económicas e da coacção diplomática; (6) escalada de histeria e exigências extremas ao Irão para por fim ao enriquecimento de urânio de uso legal e civil; (7) "exercícios" militares provocatórios nas fronteiras do Irão e jogos de guerra destinados a intimidar e a um ensaio geral para um ataque antecipativo; (8) pressão poderosa de grupos pró guerra tanto em Washington como em Tel Aviv incluindo os principais partidos políticos israelenses e a poderosa AIPAC nos EUA; (9) e finalmente o National Defense Authorization Act de 2012 (um orwelliano decreto de emergência de Obama, de 16/Março/2012).

A propaganda de guerra estado-unidense opera ao longo de dois trilhos: (1) a mensagem dominante enfatiza a proximidade da guerra e a disposição dos EUA de utilizarem força e violência. Esta mensagem é destinada ao Irão e coincide com anúncios israelenses de preparativos de guerra. (2) O segundo trilho tem como objectivo o "público liberal" com um punhado de "académicos reconhecidos" marginais (ou progressistas Departamento de Estado) a subestimarem a ameaça de guerra e argumentarem que decisores políticos razoáveis em Tel Aviv e Washington estão conscientes de que o Irão não possui armas nucleares ou qualquer capacidade para produzi-las agora ou no futuro próximo. A finalidade deste contra-vapor liberal é confundir e minar a maioria da opinião pública, a qual opõe-se claramente a mais preparativos de guerra, e fazer descarrilar o explosivo movimento anti-guerra.

É desnecessário dizer que os pronunciamentos os instigadores de guerra "racionais" utilizam um "duplo discurso" baseado no afastamento displicente de todas as evidências históricas e empíricas em contrário. Quando os EUA e Israel falam de guerra, preparam-se para a guerra e empenham-se e provocações pré guerra – eles pretendem ir à guerra – tal como fizeram contra o Iraque em 2003. Sob as actuais condições políticas e militares internacionais um ataque ao Irão, inicialmente por Israel com apoio dos EUA, é extremamente provável, mesmo quando as condições económicas mundiais deveriam ditar em contrário e mesmo quando as consequências estratégicas negativas provavelmente repercutir-se-ão através do mundo durante as próximas décadas.

Cálculo dos EUA e Israel sobre a capacidade militar do Irão

Os decisores estratégicos americanos e israelenses não concordam sobre as consequências da retaliação do Irão contra um ataque. Pelo seu lado, líderes israelenses minimizam a capacidade militar do Irão de atacar e de prejudicar o estado judeu, o qual é a sua única consideração. Eles contam com a distância, seu escudo anti-mísseis e a protecção de forças aéreas e navais dos EUA no Golfo para cobrir seu ataque sorrateiro. Por outro lado, estrategas militares dos EUA sabem que os iranianos são capazes de infligir baixas substanciais a navios de guerra dos EUA, os quais teriam de atacar instalações costeiras iranianas a fim de apoiar ou proteger os israelenses.

A inteligência israelense é bem conhecida pela sua capacidade para organizar o assassinato de indivíduos por todo o mundo: a Mossada organizou com êxito actos terroristas além-mar contra líderes palestinos, sírios e libaneses. Por outro lado, a inteligência israelense tem um registo muito fraco quanto às suas estimativas de grandes empreendimentos militares e políticos. Eles subestimaram gravemente o apoio popular, a força militar e a capacidade organizacional do Hezbollah durante a guerra de 2006 no Líbano. Da mesma forma, a inteligência israelense entendeu mal a força e a capacidade do movimento democrático popular egípcio quando este se levantou e derrubou o aliado regional estratégico de Tel Aviv, a ditadura Mubarak. Se bem que líderes israelenses "finjam paranóia" – lançando clichés acerca de "ameaças existenciais" – eles são enganados pela sua arrogância narcisista e o seu racismo, subestimando reiteradamente a perícia técnica e o refinamento político dos seus inimigos árabes e da região islâmica. Isto é indubitavelmente verdadeiro no seu descartar displicente da capacidade do Irão para retaliar contra um planeado assalto aéreo israelense.

O governo estado-unidense agora comprometeu-se abertamente a apoiar um assalto israelense ao Irão quando ele for lançado. Mais especificamente, Washington afirma que virá "incondicionalmente" em defesa de Israel se este for "atacado". Como pode Israel evitar ser "atacado" quando seus aviões estão a despejar bombas e mísseis sobre instalações iranianas, defesas militares e infraestruturas estratégicas? Além disso, dada a colaboração e aos sistemas de inteligência do Pentágono coordenados com as Forças de Defesa de Israel (IDF), seu papel na identificação de objectivos, rotas e aproximações de mísseis, bem como as cadeias de fornecimento de armas integradas e de munições, serão críticos para um ataque das IDF. Não há maneira de os EUA se dissociarem da guerra do estado judeu ao Irão depois de iniciado o ataque.

Os mitos da "guerra limitada": Geografia

. Washington e Tel Aviv afirmam e parecem acreditar que o seu planeado assalto ao Irão será uma "guerra limitada", tendo como alvo objectivos limitados e perdurando apenas uns poucos dias ou semanas – sem consequências graves.

Dizem-nos que brilhantes generais de Israel identificaram todas as instalações de investigação nuclear críticas, as quais os seus ataques aéreos cirúrgicos eliminarão sem danos colaterais horríveis para a população circundante. Uma vez que o alegado programa de "armas nucleares" fosse destruído, todos os israelenses poderiam retomar as suas vidas em segurança plena sabendo que outra ameaça "existencial" fora eliminada. A noção israelense de uma guerra limitada em "tempo e espaço" é absurda e perigosa – e caracteriza a arrogância, estupidez e racismo dos seus autores.

Para se aproximarem das instalações nucleares do Irão as forças israelenses e estado-unidenses confrontar-se-ão com bases bem equipadas e defendidas, instalações de mísseis, defesas marítimas e fortificações em grande escala dirigidas pelos Guardas Revolucionários e pelas Forças Armadas do Irão. Além disso, os sistemas de defesa de mísseis que protegem as instalações nucleares estão ligados a auto-estradas, aeródromos, portos e apoiadas por infraestrutura de finalidade dupla (civil-militar), as quais incluem refinarias de petróleo e uma enorme rede de gabinetes administrativos. Por "nocaute" os alegados sítios nucleares exigirá a expansão do âmbito geográfico da guerra. A capacidade científica-tecnológica do programa nuclear civil iraniano envolve um vasto conjunto das suas instalações de investigação, incluindo universidades, laboratórios, locais de fabricação e centros de concepção. Destruir o programa nuclear civil do Irão exigiria que Israel (e portanto os EUA) atacassem muito mais do que instalações de investigação ou laboratórios ocultos sob uma montanha remota. Exigiria assaltos múltiplos e generalizados sobre alvos por todo o país, por outras palavras, uma guerra generalizada.

O líder supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei, declarou que o Irão retaliará com uma guerra equivalente. O Irão corresponderá à amplitude e âmbito de com um contra-ataque de resposta. "Nós os atacaremos no mesmo nível quando eles nos atacarem". Isso significa que o Irão não limitará a sua retaliação a meramente tentar deitar abaixo bombardeiros estado-unidenses e israelenses no seu espaço aéreo ou a lançar mísseis a navios dos EUA nas suas águas mas levará a guerra a alvos equivalente em Israel e em países ocupados pelos EUA no Golfo e em torno dele. A "guerra limitada" de Israel tornar-se-á uma guerra generalizada que se estenderá por todo o Médio Oriente e ainda mais além.

A actual adoração ilusória de Israel acerca do seu elaborado sistema de defesa míssil ficará exposta quando centenas de mísseis de alto poder forem lançados de Teerão, do Sul do Líbano e bem além das Alturas de Golan.

O mito da guerra limitada: Intervalo de tempo

Peritos militares israelenses esperam confiantemente exterminar seus alvos iranianos nuns poucos dias – alguns podem pensar que num simples fim de semana – e talvez sem a perda de nem um único piloto. Eles esperam que o estado judeu venha a celebrar a sua brilhante vitória nas ruas de Tel Aviv e Washington. Estão iludidos pelo seu próprio senso de superioridade. O Irão não combateu uma guerra brutal com uma década de duração contra os invasores iraquianos abastecidos pelos EUA e os seus conselheiros militares ocidentais/israelenses só para entregar-se e submeter-se passivamente a um número limitado de ataques aéreos e com mísseis por parte de Israel. O Irão é uma sociedade jovem, bem educada e mobilizada, a qual pode utilizar milhões de reservistas de todo espectro político, étnico, de género e religioso, galvanizado em apoio a sua nação sob ataque. Numa guerra para defender a pátria todas as diferenças internas desaparecem para enfrentar o ataque não provocado israelenses-estado-unidense que ameaça toda a sua civilização – seus 5000 anos de cultura e tradições, bem como os seus avanços científicos modernos e instituições. A primeira onda de ataques dos EUA-Israel levará a uma retaliação feroz, a qual não será confinada às áreas originais do conflito, nem qualquer acto da agressão israelense acabará quando e se instalações nucleares do Irão forem destruídas e alguns dos seus cientistas, técnicos e trabalhadores qualificados forem mortos. A guerra continuará no tempo e em extensão geográfica.

Múltiplos pontos de conflito

Assim como qualquer ataque dos EUA-Israel ao Irão envolveria alvos múltiplos, os militares iranianos também terão uma pletora de alvos estratégicos facilmente acessíveis. Embora seja difícil prever onde e como o Irão retaliará, uma coisa está clara: O ataque inicial dos EUA-Israel não ficará sem resposta.

Dada a supremacia israelense-estado-unidense a longas e médias distâncias e em poder aéreo, o Irão provavelmente confiará em objectivos de curta distância. Isto incluiria as valiosas instalações militares do EUA e rotas de abastecimento em terrenos adjacentes (Iraque, Kuwait e Afeganistão) e alvos israelenses com mísseis lançados do Sul do Líbano e possivelmente da Síria. Se uns poucos misseis de longo alcance escaparem ao muito gabado "escudo anti-míssil" do estado judeu, centros populacionais israelenses podem pagar um preço pesado pela imprudência e arrogância dos seus líderes.

O contra-ataque iraniano levará a uma escalada das forças EUA-Israel, estendendo e aprofundando a sua guerra aérea e naval a todos o sistema de segurança nacional iraniano – bases militares, portos, sistemas de comunicação, postos de comando e centros administrativos do governo – muitos em cidades densamente povoadas. O Irão reagirá lançando o seu maior activo estratégico: um ataque coordenado no solo envolvendo os Guardas Revolucionários, juntamente com seus aliados entre as tropas xiitas iraquianas, contra forças dos EUA no Iraque. Ele coordenará ataques contra instalações dos EUA no Afeganistão e Paquistão com a crescente resistência armada nacionalista-islâmica.

O conflito inicial, centrado nos chamados objectivos militares estratégicos (instalações de investigação científica), generalizar-se-á rapidamente a alvos económicos ou o que os estrategas militares dos EUA e Israel chamam de alvos "duais civis-militares". Isto incluiria campos de petróleo, auto-estradas, fábricas, redes de comunicações, estações de televisão, instalações de tratamento de água, reservatórios, centrais eléctricas e gabinetes administrativos, tais como o Ministério da Defesa e a sede da Guarda Republicana. O Irão, confrontada com a destruição iminente de toda a sua economia e infraestrutura (o que se verificou no Iraque vizinho com a invasão não provocada dos EUA em 2003), retaliaria bloqueando o Estreito de Ormuz e enviando mísseis de curto alcance na direcção dos principais campos de petróleo e refinarias dos Estados do Golfo incluindo o Kuwait e a Arábia Saudita, a meros 10 minutos de distância, paralisando o fluxo de petróleo para a Europa, Ásia e os Estados Unidos e mergulhando a economia mundial numa depressão profunda.

Não se deveria esquecer que os iranianos provavelmente estão mais conscientes do que ninguém na região da devastação total sofrida pelos iraquianos após a invasão dos EUA, a qual mergulhou aquela nação no caos total e devastou a sua infraestrutura avançada e o seu aparelho administrativo civil, para não mencionar a sistemática aniquilação da sua elite científica e técnica altamente educada. As ondas de assassínios de cientistas iranianos, académicos e engenheiros promovidas pela Mossad são apenas uma antevisão do que os israelenses têm em mente para cientistas, intelectuais e trabalhadores técnicos altamente qualificados. Os iranianos não deveriam ter ilusões acerca dos americanos e israelenses que procuram lançar o país na sombria era brutal do Afeganistão e Iraque. Eles não terão mais papel num Irão devastado do que têm os seus vizinhos no Iraque pós Saddam.

Segundo o general Mathis, que comanda todas as forças dos EUA no Médio Oriente, Golfo Pérsico e Sudeste da Ásia, "um primeiro ataque israelense provavelmente teria consequências calamitosas em toda a região e para os Estados Unidos ali" (NY Times, 19/3/12). A estimativa de "consequências calamitosas" do general Mathis apenas leva em conta as perdas militares dos EUA, provavelmente centenas de marinheiros em vasos de guerra ao alcance de mísseis de artilheiros iranianos.

Contudo, a mais ilusória e auto-enganosa avaliação do resultado e consequências de um ataque aéreo israelense ao Irão provém de líderes israelenses de topo, académicos e peritos de inteligência, que afirmam [ter] inteligência superior, defesas superiores e visão suprema (e também racista) dentro da "mente iraniana". É típico o ministro da Defesa israelense, Barak, que se jacta de que qualquer retaliação iraniana na pior das hipóteses infligirá baixas mínimas à população israelense.

A visão "judeu-cêntrica" de reordenamento do equilíbrio de poder na região, a qual prevalece nos principais círculos israelenses, passa por alto a probabilidade de que a guerra não será decidia por ataques aéreos israelenses e defesas anti-míssil. Os mísseis do Irão não podem ser facilmente contidos, especialmente chegarem várias centenas por minuto de três direcções, Irão, Líbano, Síria e possivelmente de submarinos iranianos. Em segundo lugar, o colapso das suas importações de petróleo devastará a economia de Israel, altamente dependente da energia. Em terceiro lugar, os principais aliados de Israel, especialmente os EUA e a UE, serão gravemente tensionados quando forem arrastados para dentro da guerra de Israel e encontrarem-se a defender os estreitos de Ormuz, suas guarnições no Iraque e no Afeganistão e seus campos de petróleo e bases militares no Golfo. Tal conflito poderia incendiar as maiorias xiitas no Bahrain e nas províncias estratégicas ricas em petróleo da Arábia Saudita. A guerra generalizada terá um efeito devastador sobre o preço do petróleo e a economia mundial. Provocará a fúria de consumidores e a ira de trabalhadores por toda a parte quando fecharem fábricas e choques poderosos por todo o frágil sistema financeiro resultarem numa depressão mundial.

O patológico "complexo de superioridade" de Israel resulta em que os seus líderes racistas sistematicamente super-estimam suas próprias capacidades intelectuais, técnicas e militares, ao passo que subestimam o conhecimento, capacidade e coragem dos seus adversários regionais, islâmicos (neste caso iranianos). Eles ignoram a capacidade demonstrada do Irão para sustentar uma guerra defensiva prolongada, complexa e em muitas frentes e em recuperar-se de um assalto inicial e desenvolver armamento moderno adequado para infligir danos severos aos seus atacantes. E o Irão terá o apoio incondicional e activo da população muçulmana do mundo e talvez o apoio diplomático da Rússia e da China, que obviamente verão um ataque ao Irão como um outro ensaio geral para conter o seu poder crescente.

Conclusão

A guerra, especialmente uma guerra israelense-estado-unidense contra o Irão, está indissoluvelmente ligada ao relacionamento assimétrico EUA-Israel, o qual secundariza qualquer análise militar e política crítica nos EUA. Devido à configuração de poder sionista de Israel, a força militar dos EUA pode ser canalizada para o apoio ao impulso de Israel para a dominação regional, aos líderes israelenses e acima de tudo para os seus militares sentirem-se livres para entrarem nas mais ultrajantes aventuras militares e destrutivas, sabendo muito bem que em primeira e última instância podem confiar no apoio dos EUA com o sangue e as riquezas americanas. Mas depois de todo este grotesco servilismo a um país racista e isolado, quem resgatará os Estados Unidos? Quem impedirá o afundamento dos seus navios no Golfo e a morte e mutilação de centenas dos seus marinheiros e milhares dos seus soldados? E onde estarão os israelenses e sionistas dos EUA quando o Iraque for invadido pelas tropas de elite iranianas e seus aliados xiitas e um levantamento generalizado se verificar no Afeganistão?

Os decisores políticos egocêntricos de Israel desprezam o provável colapso do abastecimento de petróleo mundial em consequência da sua planeada guerra contra o Irão. Será que os seus agentes sionistas nos EUA percebem que, em consequência do arrastamento dos EUA para a guerra de Israel, a nação iraniana será forçada a por em chamas os campos de petróleo do Golfo Pérsico?

Quão barato tornou-se "comprar uma guerra" nos EUA? Por uns meros poucos milhões de dólares em contribuições de campanha para políticos corruptos e através da penetração deliberada de agentes "Israel-First", académicos e políticos na maquinaria de fazer a guerra do governo estado-unidense, e através da covardia moral e auto-censura dos principais críticos, escritores e jornalistas que se recusam a nomear Israel e seus agentes como os decisores chave do nosso país na política do Médio Oriente, nós nos encaminhamos directamente rumo a uma guerra muito além de qualquer conflagração militar regional e rumo ao colapso da economia mundial e do empobrecimento brutal de centenas de milhões de pessoas de Norte a Sul, de Leste a Oeste.
05/Abril/2012

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=30150

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

"O cenário da III Guerra Mundial"


Por Sara Sanz Pinto, no sítio português O Diário:



Presidente e director do Centre for Research on Globalization, Michel Chossudovsky conversou com o "i" sobre essa possível terceira guerra mundial, de que fala no seu livro “Towards a World War III Scenario: The Dangers of Nuclear War”. Crítico da fortificação militar que os Estados Unidos estão a construir em torno da China, o professor canadiano da Universidade de Otava defende que a opinião pública é fundamental para evitar uma guerra nuclear.







Diz no seu livro que a guerra com o Irão já começou e que os Estados Unidos estão apenas à espera de um rosto humano para lhe dar. Acredita que os objectivos políticos e geoestratégicos de Washington podem levar-nos a uma guerra nuclear com consequências para toda a humanidade?



Não quero fazer previsões e ir além do que aconteceu. Tudo o que posso dizer, e tenho vindo a dizê-lo de forma repetida, é que a preparação para a guerra está a um nível muito elevado. Se será levada a cabo ou não é outro patamar, e ainda não o podemos afirmar. Esperemos que não. Mas temos de considerar seriamente o facto de que este destacamento de tropas é o maior da história mundial. Estamos a assistir ao envio de forças navais, homens, sistemas de armamento de ponta, controlados através do comando estratégico norte-americano em Omaha, Nebrasca, e que envolve uma coordenação entre EUA, NATO e forças israelitas, além de outros aliados no golfo Pérsico (Arábia Saudita e estados do Golfo).



Estas forças estão a postos. Isto não significa necessariamente que vamos entrar num cenário de terceira guerra mundial, mas os planos militares no Pentágono, nas bases da NATO, em Bruxelas e em Israel, estão a ser feitos. E temos de os levar muito a sério. Tudo pode acontecer, estamos numa encruzilhada muito perigosa e infelizmente a opinião pública está mal informada. Dão espaço a Hollywood, aos crimes e a todo o tipo de acontecimentos banais, mas, no que toca a este destacamento militar que poderá levar-nos a uma terceira guerra mundial, ninguém diz nada. Isso é um dos problemas, porque a opinião pública é muito importante para evitar esta guerra. E isso não está a acontecer, as pessoas não se estão a organizar para se oporem à guerra.



Isto não é uma questão política, é um problema muito mais vasto, e tenho de dizer que os meios de comunicação ocidentais estão envolvidos em actos de camuflagem absolutamente criminosos. Só o facto de alinharem com a agenda militar, como estão a fazer na Síria, onde sabemos que os rebeldes são apoiados pela NATO, na Arábia Saudita e em Israel, e como fizeram na Líbia, é chocante do meu ponto de vista, porque as mentiras que se criam servem para justificar uma intervenção humanitária.



Em vez de uma guerra nuclear, não podemos assistir a um cenário semelhante à Guerra Fria, com os EUA, a União Europeia e Israel de um lado e a China, a Rússia e o Irão do outro?



Esse cenário já é visível. A NATO e os EUA militarizaram a sua fronteira com a Rússia e a Europa de Leste, com os chamados escudos de defesa antimíssil – todos esses mísseis estão apontados a cidades russas. Obama sublinhou em declarações recentes que a China é uma ameaça no Pacífico – uma ameaça a quê? A China é um país que nunca saiu das suas fronteiras em 2 mil anos. E eu sei, porque ando a investigar este tema há muito tempo, que está a ser construída toda uma fortaleza militar à volta da China, no mar, na península da Coreia, e o país está cercado, pelo menos na sua fronteira a sul. Por isso a China não é a ameaça. Os EUA são a ameaça à segurança da China. E estamos numa situação de Guerra Fria. Devo mencionar, porque é importante para a UE, que, no limite, os EUA, no que toca à sua postura financeira, bancária, militar e petrolífera, também estão a ameaçar a UE. Estão por trás da destabilização do sistema bancário europeu.



E a colocação de mais tropas em torno da China vai trazer mais tensão à região.



Quanto a isso não tenho dúvidas, porque os EUA estão a aumentar a sua presença militar no Pacífico, no oceano Índico e estão a tentar ter o apoio das Filipinas e de outros países no Sudeste Asiático, como o Japão, a Coreia, Singapura, a Malásia (que durante muitos anos esteve reticente a juntar-se a esta aliança). Portanto, Washington está a formar uma extensão da NATO na região da Ásia-Pacífico, direccionada contra a China. Não há dúvidas quanto a isto. E não se vence uma guerra contra a China. É um país com uma população de 1,4 mil milhões de pessoas, com um número significativo de forças, tanto convencionais como estratégicas.



Por isso, com este confronto entre a NATO e os EUA, de um lado, e a China, do outro, estamos num cenário de terceira guerra mundial. E toda a gente vai perder esta guerra. Qualquer pessoa com um entendimento mínimo de planeamento militar sabe que este tipo de confronto entre superpotências – incluindo o Irão, que é uma potência regional no Médio Oriente, com uma população de 80 milhões de pessoas – poderá levar-nos a uma guerra nuclear. E digo isto porque os EUA e os seus aliados implementaram as chamadas armas nucleares tácticas – mudaram o nome das bombas e dizem que são inofensivas para os civis, o que é uma grande mentira.



Mentira porquê?



Está escrito em todos os documentos que a B61-11 [arma nuclear convencional] não faz mal às pessoas e planeiam usá-la. Tenho estado a examinar estes planos de guerra nos últimos oito anos, e posso garantir que estão prontos a ser usados e podem ser accionados sem uma ordem do presidente dos EUA. Olhe para o que eles designam “Nuclear Posture Review” de 2001, um relatório fulcral que integra as armas nucleares no arsenal convencional, sublinhando a distinção entre os diferentes tipos de armas e apresentando a noção daquilo que chamam “caixa de ferramentas”. E a caixa de ferramentas é uma colecção de armas variadas, que o comandante na região ou no terreno pode escolher, onde estão estas B61-11, que são consideradas armas convencionais. Se quiser posso fazer uma analogia, é a mesma coisa que dizer que fumar é bom para a saúde. As armas nucleares não são boas para a saúde, mudaram o rótulo e chamaram–lhes bombas humanitárias, mas têm uma capacidade destruidora seis vezes superior à de Hiroxima.



Mas a maior parte das pessoas não parece consciente da gravidade do cenário…



A ironia é que a terceira guerra mundial pode começar e ninguém estará sequer a par, porque não vai estar nas primeiras páginas. Na verdade, a guerra já começou no Irão. Têm forças especiais no terreno, instigaram todo este tipo de mecanismos para desestabilizar a economia iraniana através do congelamento de bens. Há uma guerra da moeda em curso – isto faz parte da agenda militar. Desestabilizando-se a moeda de um país desestabiliza-se a sua economia, bloqueiam-se as exportações de petróleo, e isto antecede a implementação de uma agenda militar.



Se eles puderem evitar uma aventura militar contra o Irão e ocupar o país através de outros meios, fá-lo-ão. É isso que estão a tentar neste momento. Querem a mudança de regime, o colapso das petrolíferas, apropriar-se dos recursos do país, e têm capacidade para fazer isto tudo sem uma intervenção militar, embora alguma possa vir a ser necessária. Mas o Irão é considerado uma das maiores potências militares da região e basta olharmos para as análises da sua força aérea, a sua capacidade em mísseis, as suas forças convencionais que ultrapassam um milhão de homens (entre activo e reserva), o que permite que de um dia para o outro consiga mobilizar cerca de metade, ou até mais. Tendo em conta estes números, os EUA e os seus aliados não conseguem vencer uma guerra convencional contra o Irão, daí a razão pela qual estão a tentar fazer a guerra com outros meios, e um desses meios é o pretexto das armas nucleares.



Acha que o Ocidente pode lançar um ataque preventivo contra o Irão mesmo sem provas?



Claro que sim! Olhe para a história dos pretextos para lançar guerras. Olhe para trás, para todas as guerras que os EUA começaram, a partir do século XIX. O que fazem sistematicamente é criar aquilo que chamamos incidente provocado para começar a guerra. Um incidente que lhes permite justificar o início de um conflito por motivos humanitários. Isto é muito óbvio. Em Pearl Harbor, por exemplo, sabe-se que foi uma provocação, porque os EUA sabiam que iam ser atacados e deixaram que tal acontecesse. O mesmo se passou com o incidente no golfo de Tonkin, que levou à guerra do Vietname. E agora são vários os pretextos que emergem contra o Irão: as alegadas armas nucleares são um, outro é o alegado papel nos atentados 11 de Setembro, pois desde o primeiro dia que acusam o país de apoiar os ataques, a afirmação mais absurda que podem fazer, pois não existem quaisquer provas. Mas os media agarram nestas coisas e dizem “sim, claro”.



Pode explicar às pessoas de uma forma simples a relação entre guerra contra o terrorismo e batalha pelo petróleo?



A guerra contra o terrorismo é uma farsa, é uma forma de demonizar os muçulmanos e é também a criação, através de operações em segredo dos serviços secretos, de brigadas islâmicas, controladas pelos EUA. Sabemos disso! Estas forças, ligadas à Al-Qaeda, são uma criação da CIA de 1979. Por isso a guerra contra o terrorismo é apenas um pretexto e uma justificação para lançar uma guerra de conquista. É uma tentativa de convencer as pessoas de que os muçulmanos são uma ameaça e de que estão a protegê-las e para isso têm de invadir países perigosos, como o Irão, o Iraque, a Síria e a Coreia do Norte, que perdeu 25% da sua população durante a Guerra da Coreia, mas, no entanto, continua a ser tida como uma ameaça para Washington. É absurdo!



Os americanos são um pouco como a inquisição espanhola. Aliás, piores! O que mais me choca é que os EUA conseguem virar a realidade ao contrário, sabendo que são mentiras e mesmo assim acreditando nelas. A guerra contra o terrorismo é uma mentira enorme, mas todas as pessoas acreditam e o mesmo se passava com a inquisição espanhola – ninguém a questionava. As pessoas conformam-se com consensos e quem assume a posição de que isto não passa de um conjunto de mentiras é considerado alguém em quem não se pode confiar e provavelmente perderá o emprego. Por isso esta guerra é contra a verdade, muito mais séria que a agenda militar. Contra a consciência das pessoas – parece que ninguém está autorizado a pensar. E depois vêm dizer-nos “Ah, mas as armas nucleares são seguras para os civis”. E as pessoas acreditam.



Será Israel capaz de atacar Irão sem o apoio dos EUA?



Não. Eles podem enviar as suas forças, por exemplo para o Líbano, mas o seu sistema está integrado no dos EUA e, como o Irão tem mísseis, têm de estar coordenados com Washington. É uma impossibilidade em termos militares. Em 2008, o sistema de defesa aérea de Israel foi integrado no dos EUA. Estamos a falar de estruturas de comando integradas. Quer dizer, Israel pode lançar uma pequena guerra contra o Hezbollah ou até contra a Síria, mas contra o Irão terá de ser com a intervenção do Pentágono. Embora tendo uma fatia significativa de militares, Israel tem uma população de 7 milhões de pessoas e não tem capacidade para lançar uma grande ofensiva contra o Irão.



* Publicado no jornal “I” em 14 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

'O neoprogressismo pode ter vários anos pela frente'


O jornalista e escritor Ignacio Ramonet diz, em entrevista ao jornal Página/12 que a maioria dos governos da América do Sul cumpre a função dos social-democratas europeus nos anos 50 e que, se não cometerem erros, podem aspirar a um ciclo longo de governo. "A construção do Estado de bem-estar e o aumento do nível de vida acaba com qualquer tipo de recurso para as oposições tradicionais conservadoras. Agora, a população está percebendo como os seus países estão reconstruindo sociedades arrasadas".

Martín Granovsky - Página/12



Porto Alegre - Nascido em Pontevedra e emigrado com sua família para a França, Ignacio Ramonet dirige o Le Monde Diplomatique em espanhol. Foi um dos animadores do primeiro Fórum em 2001 e é um dos jornalistas que mais percorrem o mundo, observando suas diferentes realidades.



– Sobre o final do Fórum temos direito de perguntar se foi útil e o que mudou com respeito ao primeiro encontro, de 2001.



Ramonet –Quando o fórum foi criado não havia outro governo dos que eu chamo neoprogressistas na América Latina que não fosse o de Hugo Chávez, que inclusive veio ao fórum. No ano seguinte, em 2002, pela primeira vez Chávez se declarou socialista. Também veio Lula quando ainda não era presidente, mas candidato. Agora, ao contrário, os governos neoprogressistas estão implementando as políticas de inclusão social e, ao mesmo tempo, o fórum é menos um fórum dos movimentos sociais. É um fórum no qual se discutiu a crise européia, o movimento dos indignados em geral (os chilenos, Wall Street, etc.) e a questão da memória. A jornada da Flacso na sexta-feira, o dia do Holocausto, foi uma das atividades centrais, organizada pelo Fórum Social Temático e o Fórum Mundial da Educação.



Até agora esses não eram assuntos do fórum. Os indignados são um tema que não tem mais de um ano, e o debate sobre a memória não havia sido proposto dessa maneira. Dominavam o anti-imperialismo e a denúncia das guerras dos Estados Unidos no Iraque ou no Afeganistão. Está se chegando a um nível diferente. Os governos aqui na América do Sul estão agindo bem em seu conjunto. Mas, cuidado, chega uma nova etapa e é preciso melhorar certos aspectos qualitativos.



– O que deveria melhorar na América do Sul?



Ramonet – Não acreditar que esta bonança que se está vivendo vai ser duradoura. Depende do êxito norte-americano e europeu e de se há baixa ou não na economia chinesa que afete a potências agrícolas ou de minérios.



– Um dos pontos é como a América do Sul aproveita sua atual vantagem pelos preços favoráveis dos produtos primários que vende para que outra vez o lucro principal não sejam palácios franceses no meio da pampa úmida.



Ramonet – A economia funciona por ciclos. Na Europa não podemos falar de palácios no meio de nada, mas sim de grandes aeroportos moderníssimos que agora quase não funcionam ou óperas em cidades pequeníssimas. A riqueza passou e nem sempre se sabe aproveitar. Aqui, na América do Sul, a solução é criar mais e mais mercado interno. E mercado interno protegido. E também ampliar os intercâmbios no marco da solidariedade latino-americana. Agora, o mercado latino-americano tem que se articular para que haja massa crítica para todos. Se não, o Brasil se desenvolverá, mas o Uruguai não. Agora que desapareceram 80 milhões de pobres, há uma classe média que consome. O Brasil introduziu o imposto sobre a produção de automóveis frente à China e aumentou essa taxa em 30%. É proteção e é correta.



– Que discussão mundial nova apareceu no Fórum?



Ramonet – Por agora, muitos constataram que, além das diferentes opiniões, a globalização existe. Se existe, há que analisá-la e descobrir como evitar seus inconvenientes. Em escala mundial, em um debate sobre a crise do capitalismo, uma das opiniões foi que havia que pensar talvez em desglobalizar e reduzir a globalização. Não existe só uma crise econômica. Existe uma crise da política, da democracia, uma crise alimentar, ecológica. Muitos países latino-americanos não estão pensando nas outras crises, em particular na ecológica. Boaventura de Souza Santos sublinhou que não é normal que se acuse comunidades indígenas, chamando-as de "terroristas" quando querem proteger o meio ambiente. As realidades vão mudando. O Movimento dos Sem Terra do Brasil, que antes ocupava terras, não o faz porque não as têm. Qualquer pedaço de terra é soja. E como o MST, quando se assenta, realiza produções ecológicas, é recriminado pelo agronegócio.



– A discussão ecológica é chave também porque haverá uma cúpula mundial no Rio de Janeiro em junho.



Ramonet – A precaução ecológica é algo que se lembrou e que, em certa medida, faz com que os governos estejam pensando em fazer as coisas certas. Dilma disse que queria dar casas à população. Parece-me muito bem, realmente muito bem. Mas tenhamos cuidado de não chegar ao pragmatismo chinês, que em nome do desenvolvimento destrói o que se oponha a essa idéia, e terminemos entrando sem necessidade em uma grande contradição.



– Dilma diria: “Está bem, Ignacio, mas eu tenho que governar o Brasil e terminar com a miséria”.



Ramonet – As preocupações ecológica e a social não são excludentes. O Fórum apreciou muito que Dilma tenha decidido vir aqui e não tenha viajado ao Fórum de Davos. Quando Lula veio e disse que depois se dirigiria a Davos, alguém lhe disse: “Não se pode servir a dois senhores de uma vez”. É uma frase bíblica. “Tem que escolher.”



– Talvez Lula necessitasse ir a Davos porque isso também ajudava na consolidação política de seu governo e hoje o Brasil não necessita de Davos.



Ramonet – Claro, as condições mudam. E o fórum deve mudar também. Antes muitos dirigentes ou presidentes vinham aqui se fortalecer. Chávez e Lula, que já citei. Também Evo Morales, Rafael Correa e Fernando Lugo. Para algumas discussões, uma reunião do fórum pode ter hoje um maior sentido na Europa, para discutir ali mesmo a tremenda crise. No próximo ano está previsto que tenha lugar em um país árabe, porque lá os movimentos sociais não só estão se desenvolvendo, mas também conseguiram ganhar em dois países. E há novas discussões, por exemplo, entre movimentos sociais laicos e movimentos sociais islâmicos.



– O que poderia ser discutido na Europa?



Ramonet – Na Europa já há algumas discussões que se produziam na América Latina. Uma é a idéia de que a política está gasta e se necessita uma renovação política. De que o sangue e a vitalidade nova virão dos movimentos sociais. Dessa vitalidade pode surgir uma mudança. Este fórum não teria o mesmo sentido se fosse organizado em Madri, Atenas ou Barcelona, onde há sociedades que sofrem e ao mesmo tempo registram em alguns setores grande vontade de mudança. Na América do Sul, por sorte de vocês, existem situações em que a preocupação é seguir crescendo e como fazê-lo melhor.



– Não há um risco de endeusar os movimentos sociais como fatores de mudança? Se não há construção política, não se diluem?



Ramonet – Sim, é importante ver como se passa de um momento ao outro. Ainda não estamos nessa etapa na Europa, me parece. Ainda não. Ninguém expressa melhor o sofrimento social que o movimento social. Mas se não se dá o passo para a política, todas as grandes crises sempre servem à extrema direita, que aparece sob a forma de movimentos e de partidos anti-sistema. Prometem as mudanças mais radicais, demagógicas, transformacionais. É importante que o sofrimento social se encarne em movimentos que tenham vocação de se envolver na política.



– Por que ainda não acontece esse passo?



Ramonet – Entre outras coisas, em minha opinião, porque faltam líderes. Até o momento, o movimento social inclusive reprova ter líderes. São muito igualitaristas do ponto de vista do funcionamento democrático. É como a doença infantil do movimento social. Em breve chegará o momento da adolescência ou a maturidade, quando seguramente se gerarão líderes. Não líderes salvadores. Falo de dirigentes democráticos que possam entender o movimento social e ajudá-lo a encontrar respostas. Depois da crise do sistema político venezuelano, no final do que se chamou o “puntofijismo”, teria havido mudanças sem Chávez e o que ele representava? E me faço a mesma pergunta com respeito ao Equador e Correa, à Bolívia e Evo, ao Brasil e Lula, à Argentina e Kirchner.



– E como funciona a relação entre os líderes, os movimentos e os partidos nesses países da América do Sul?



Ramonet – Minha percepção é que hoje os partidos têm menos influência que há dez anos e os movimentos sociais também porque os governos estão fazendo tudo. Os líderes dos governos conduzem a mudança. Houve uma energia social que produziu a mudança, mas a mudança está tão encarrilhada que às vezes há uma descapitalização da política que paradoxalmente não incomoda muito.



– Talvez com as construções políticas aconteça o mesmo que com os ciclos econômicos. Talvez devam ou possam ser realizadas antes que o ciclo atual de governos sul-americanos termine.



Ramonet – A função destes governos é muito semelhante a dos governos europeus dos anos 50 que, essencialmente, sendo conservadores ou progressistas, tinham como funções construir o Estado de bem-estar, reconstruir cada país depois da guerra e aumentar o nível de vida da população. Isso lhes deu 40 anos de estabilidade política. Mas terminou. Se os neoprogressistas sul-americanos não cometerem muitos erros, talvez tenham pela frente várias décadas como a social-democracia nórdica. Hoje melhoram estruturas, o nível de vida, criam trabalho. Não é por acaso que são os governos neoprogressistas os que estão trabalhando bem. Assim aconteceu com os velhos partidos social-democratas. Além disso, a construção do Estado de bem-estar e o aumento do nível de vida acaba com qualquer tipo de recurso para as oposições tradicionais conservadoras. Agora a população percebe como os países reconstroem sociedades arrasadas.



As favelas eram pensadas como uma fatalidade. Para a direita, era assim porque é assim. Mas a força da direita desapareceu, e também o elemento militar. As leis da memória são as que devem responsabilizar – sem vingança, com documentos e base histórica sólida – e estabelecer responsabilidades. Não vingar-se, mas terminar com a impunidade. Apesar de que o que vou dizer parece escandaloso, estamos no momento mais fácil da América do Sul. Se não cometerem erros e fizerem uma gestão tranquila, os governos de sinal neoprogressista podem ficar no poder muito tempo. Por isso é preciso pensar bem as sucessões políticas. Na Argentina isso funcionou bem. No Brasil, o que fez Lula foi exemplar. É uma lição. E por isso hoje Dilma tem mais aprovação popular do que Lula tinha em seu primeiro ano de governo.



(*) Ignacio Ramonet é autor, entre outras obras, de "Fidel Castro: biografia a duas vozes" (Boitempo, 2006).